30.6.06

Para trás



Pálpebras cerradas
É a adorável princesa da dor,
Tocando seus cílios úmidos
Sentindo a lágrima escorrendo, passeando na pele quente.
...
E quando desanimada,
Ainda capaz de ouvir o silêncio desesperador da solidão.
...
O gosto do medo
Invadindo cada poro
Prendendo em suas amarras
Imobilizando e inviabilizando qualquer possibilidade...
..
Curiosa satisfação,
O formato desse filme estranho
Como ele é capaz de fazer ver através...
...
Mas já está em tempo,
Talvez seja esse o último vento pronto pra levar
...
Hora de abandonar...
De não olhar pra trás!

24.6.06

3 x 4


Eu que não mereço
Obtenho probabilidades falsas
E destruo sonhos alheios
Por não ter como construir alicerces para os meus.

Ganho coisas que não mereço
E gasto muito mais do que recebo.

Eu que percebo tantos olhos aflitos
Fecho os meus para que não encontrem abrigo em mim.

Desejo apenas, hoje, ser translúcida
Ou mero reflexo de alma alheia
Mera pose
Um 3x4 inacabado
turvo e obscuro...
Numa velha carteira de identidade

20.6.06

Íris


"Quero respeito e sempre ter alguém me entenda e sempre fique ao meu lado...
Mas não, não quero estar apaixonado! (...) Essa escravidão e essa dor não quero mais!"
(Renato Russo)

Uma vida...
Um caminho
Entre dezenas de bifurcações,
Uma trilha
Um atalho
Entre pisos, assoalhos e varandas
Uma fenda
Uma gota de orvalho
Entre a neblina que cobre todo o jardim
Uma fresta
Uma busca
Um começo
Um recomeço
Uma partida
Uma chegada
Entre cometas, céus, universos...
Um caminho sem volta
E um fim.
[qualquer fim]
Por um prisma positivo pode até não ser tão ruim!

11.6.06

FELIZ DIA DOS NAMORADOS!


Que venham então todos os males do mundo...
Porque cada um deve levar o que é seu de direito!

Em tempo


"Quiçá fechaduras rangendo...
Abrindo idéias no tempo
Fachadas da mente"


Não se deixe abater, certa vez ouvi dizer...
Mas quando me deparei com um sofrer verdadeiro e os fortes vencendo
Pensei q talvez não merecesse o fracasso,
Mas a sorte de seus passos
E meu desejo de contigo caminhar.
Parece-me uma grande loucura
Mas e daí?
Todo o resto também é!
Agora já é tempo de tomar outros ares
Flutuar em novos ventos
Navegar outros mares...
É tempo de rever o invisível
E sentir o impossível
É tempo de caminhar!

10.6.06

Boa Noite


"O amor, como se sabe, é um conceito vastíssimo, que pode alcançar céus e infernos em que se conjugam o bem e o mal, a nobreza e a baixeza."
(C. G. Jung)



Nem era tão tarde, eu sei
Mas já havia perdido tudo mesmo...
O avião, a voz, os documentos
E o tempo.
O tempo também se perdeu...
Não me lembro ao certo que voz o cantou ou em que avião embarcou,
Mas me lembro de seu efeito
Um terremoto, turbilhão, armagedom,
Apocalipse!
Exatamente como naquele sonho...
O sangue escorria e eu pedia uma câmera fotográfica
Queria essa passagem registrada,
Precisava sentir tão quente e assustador
Porque ao final (como sempre) eu me lavava, imunizava
E deparava-me com injeções fragilizantes, calmantes estimulantes e antidepressivos num infindável declínio...

A última gota de um "bleeding heart", a luz apagando...
O sono que vem é quase abandono
Mas o que tem demais?
Cedo ou tarde acabo acordando...
Pra ontem, hoje ou nunca mais!

2.6.06

A Jarra


Estava na fila ontem e ouvi tanta asneira que cansei;
Cansei de esperar e fui direto ao gerente.
Todos estavam esperando a mesma coisa, eu sei
“O produto veio com defeito, sr. Gostaria de trocar”
Eu simplesmente queria devolver,
Mas ele não quis me dar atenção, disse pra eu voltar pra fila
E adivinhe só o que aconteceu?
Algo despertou em mim, tenho certeza que meus olhos brilharam naquele instante,
Praticamente um surto psicótico,
Caminhei lentamente pela loja, parei, olhando tudo, escolhendo, e então...
Quebrei todo o jogo de cristal (belíssimo) da vitrine!
Ele veio enlouquecido, vermelho, parecia que ia explodir...
Há, há, há, foi engraçadíssimo gente, juro!
Continuando meu ritual, com a mesma calma com que derrubei tudo pelo chão,
Abri a bolsa, desembrulhei bem devagar... (E que embrulho...lindo, gente! Dessas lojas chiquérrimas, sabe?! Papel de seda, aquele laço perfeito... Nossa, nem dá vontade de abrir, tamanha é a perfeição!) peguei minha linda jarra, aquela dos sonhos de qualquer pessoa (eu iria trocá-la por uma maior, pra ter idéia de como eu tinha gostado da aquisição...)
Só de lembrar me dá uma satisfação...
Peguei aquela linda jarra, cristal puro, caríssima, ela que detinha toda a minha estima... e arremessei sem pena direto na vitrine da loja... Claro que o vidro não estilhaçou como eu gostaria, mas que fez um bom estrago fez... e minha linda [ex] jarra... coitada... Essa sim virou um monte de caquinhos, juntando-se com o jogo inteiro pelo chão da vitrine tão bem decorada (porque bom gosto é o que eles têm de melhor lá!)
E o gerente... o gerente?!
Há, há, há!!! Ele ficou louco, perdeu toda a compostura, parecia um lobo frente a presa...
E eu? Ah, eu sorri, como nunca o fizera antes... E disse a ele: “Bem, agora o sr. pode voltar para sua “fila” (e ela estava agora ainda mais quilométrica, os ânimos variavam entre a catatonia e euforia) eles o esperam... Eu não tenho mais o que esperar aqui, mas de qualquer forma, obrigado pela atenção!”
Ia saindo da loja, quando voltei-me para o gerente (que estava catatônico agora e um pouco menos vermelho!) e acrescentei: “Ah, o sr. não se preocupe, porque o seguro cobre qualquer acidente neste estabelecimento... E fique mais calmo, vermelho não é uma cor que combine com essa gravata azul celeste!”
E voltei pra casa, aliviada, abri a porta, o gato recebeu-me cheio de afeto, como sempre... Eu sorri e retribui o afeto... Ainda com ele em meu colo disse: “Feliz de você, bichano, que não tem que esperar na fila!” E gargalhei...

Fui a cozinha, abri o armário, apreciei minha coleção de jarras, uma de cada tipo... Todas tão lindas, tão diferentes...
O gato agora rodeando meus pés, pedia mais que carinho, acariciei seu pêlo, sorri... Ele miou, não queria esperar... Olhei profundamente em seus olhos, sempre apreciei o olhar dele, um amarelo brilhante, saltava-lhe a cara peluda e negra. Como era lindo!
Servi-lhe então uma boa tigela de leite bem gelado e caminhamos os dois para o silêncio do quarto!